1- Sobre a figura do diabo
O diabo é visto pela tradição como um ser eternamente devotado ao mal, antítese de Deus ou é visto como um anjo (ser perfeito criado por Deus) que, enciumado, se revoltou e se pôs contra Deus. Em qualquer um desses casos há dificuldades a serem explicadas.
A primeira dificuldade está na ideia de Deus e o diabo como seres combatentes entre si. Se o diabo é um ser devotado ao mal e sendo Deus o criador de tudo, Ele teria que ter criado o diabo para ser esse ser devotado ao mal, a própria antítese de Deus. Isso não coaduna com o atributo divino de bondade e justiça infinitas. Deus criaria um ser para ser eternamente mal? Teria Deus um antagonista à sua altura? Se assim fosse onde estaria a onipotência de Deus? É uma lógica simplista e reducionista. Deus não criou esse ser, portanto esse tipo de ser, não existe.
A segunda dificuldade é a ideia do anjo decaído. Se o diabo era um anjo criado por Deus (e na ideia teológica anjo é perfeito) como poderia esse ser, perfeito, tornar-se imperfeito, visto que perfeição é o ápice, é absoluta? Ainda nessa lógica, sendo Deus perfeito e tendo criado um ser perfeito (anjo) que, ao final, não se mostrou perfeito, teria Deus, então, se enganado? Deus não se engana, pois Ele é a sabedoria infinita e é onisciente. Essa lógica também não encontra eco na racionalidade e nega os atributos de Deus, tal qual vemos na teodiceia.
A segunda dificuldade é a ideia do anjo decaído. Se o diabo era um anjo criado por Deus (e na ideia teológica anjo é perfeito) como poderia esse ser, perfeito, tornar-se imperfeito, visto que perfeição é o ápice, é absoluta? Ainda nessa lógica, sendo Deus perfeito e tendo criado um ser perfeito (anjo) que, ao final, não se mostrou perfeito, teria Deus, então, se enganado? Deus não se engana, pois Ele é a sabedoria infinita e é onisciente. Essa lógica também não encontra eco na racionalidade e nega os atributos de Deus, tal qual vemos na teodiceia.
A figura do diabo é uma ideia arquetípica, que está inclusa na estrutura do mito, do maniqueísmo, das dicotomias. É uma figura "criada" para explicar a existência do mal, como efeito da transgressão, no mito do anjo caído, ou na eterna disputa pelo poder, como vemos na cultura persa aquemênida nas figuras míticas de Ormuz e Arimã, deuses antagônicos, figuras do bem e do mal.
Para a doutrina espírita não há a figura do diabo, (ou outro nome que seja), simbolizando um ser uno e contraposto a Deus. Para a doutrina espírita o espírito não é criado perfeito. É criado simples e ignorante, portanto é um ser perfectível e que, pelas suas escolhas, evolui. Na questão de número 100, de O Livro dos Espíritos, temos apresentada uma "escala" espiritual, onde vemos as categorias dos Espíritos, de imperfeitos a puros, caracterizando cada uma das escalas. Percebem-se, claramente, as características dos Espíritos maus e dos bons.
Os Espíritos, pelo seu arbítrio, formam suas personalidades, boas ou más. Assim sendo, em vez de diabo, há Espíritos malévolos, maus, que se comprazem em fazer o mal pelo prazer de fazê-lo ou pela própria maldade. O que se, miticamente, chama-se demônio ou diabo, são, de fato, Espíritos maus que, cristalizados na maldade, não percebem sua impropriedade. Um dia, quando aclarados seus pensamentos, buscarão outro caminho, algumas vezes a duras penas, mas buscarão evoluir, pois a evolução é um determinismo divino e fruto da nossa perfectibilidade.
Muitas pessoas, que desconhecem o espiritismo, afirmam que a doutrina espírita apregoa a ideia da não existência do diabo justamente por que ela (a doutrina espírita) é de origem diabólica. Isso é uma pobreza de raciocínio sem tamanho!! Como bem disse o Cristo, um reino dividido não sobrevive. Ora, a doutrina espírita prega o amor, a caridade, o respeito humano, a submissão a Deus, tendo Jesus como modelo e guia. Como pode, então, ser uma doutrina diabólica? Se fosse de origem diabólica, o diabo, então, melhorou-se muito, pois só pede para se fazer o bem.
2 - Sobre a ideia da Salvação
Quanto à ideia da "salvação" pela caridade, é uma força de expressão que se utiliza para dar outro sentido à vida. Dizia-se (e ainda dizem) que "fora da igreja não há salvação". Os Espíritos, aproveitando dessa ideia, trouxeram-nos que não é a instituição religiosa que salva, mas as atitudes individuais. Não basta amar é preciso ter atitudes de amor. Por isso caridade, cujo significado é amor. Fora da caridade não há salvação é o mesmo que dizer fora do amor não há salvação, como bem descrito pelo apóstolo Paulo em sua carta primeira aos coríntios, no seu capítulo 13.
Em que sentido podemos entender a palavra salvação?
No sentido teológico, a salvação é dada por outrem, como graça ou indulgência. Neste sentido, há, também, a ideia escatológica, ou seja, uma salvação advinda de um julgamento final, para uma beatitude celeste ou para um penar eterno.
No sentido epistemológico, a salvação já tem a ideia de libertação pessoal. Fruto da consciência individual e do bom sentimento para com todos. É a autolibertação pelas obras advindas de um bom sentimento e uma boa intenção. Tudo isso pela vontade de quem as pratica. Nesse sentido o Espírito Paulo de Tarso, em comunicação grafada no capítulo XV do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, na mensagem que tem por título Fora da caridade não há salvação diz que "para se fazer o bem são necessárias a ação e a vontade, para não fazer o mal, bastam, frequentemente, a inércia e a negligência".
Então, para a ideia espírita, a salvação é nesse sentido, qual seja, o epistemológico. A autolibertação pela consciência, pela fé, pelo sentimento, e pelas atitudes. É uma atitude e não uma espera. É a evolução em lugar de salvação. Podemos dizer que "fora da caridade não há evolução".
(Análise feita por Simão Pedro de Lima)
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